Slayer | Divine Intervention (1994)

Para os leitores de longa data deste blog, é fato comum eu apresentar resenhas que tratam das bandas que influenciaram não somente a minha personalidade musical, mas toda a minha adolescência. Acredito que esse é um dos períodos mais mágicos da vida de qualquer pessoa, em que tudo é novidade e se torna extremamente intenso.
Entre os meus 13 (treze) e 14 (quatorze) anos, criei uma fixação em relação ao metal extremo. Durante esse período, eu procurava consumir ao máximo qualquer tipo de banda que chocasse, desde o som até a atitude. Foi justamente nesse breve período que consumi gêneros como Black Metal e achava sonoramente o GG Allin um máximo (se arrependimento matasse, cof cof).
Àquela altura, o Thrash Metal já se encontrava presente na minha pequena discografia pessoal, porém, representava uma parcela muito pequena. Em verdade, apenas duas bandas se destacavam: Metallica e Megadeth. Ambas por pura influência dos meus amigos da época. Logo, procurando expandir meus conhecimentos sobre o gênero, fui em busca de outras bandas que fossem quase sinônimos do segmento e, claro, não demorou muito para me deparar com os caras do Slayer.
Não vou mentir, o Slayer não era uma banda totalmente desconhecida para mim, pois já havia ouvido músicas como "Raining Blood" e "Angel Of Death", contudo, estava longe de ser um grupo que mencionaria quando surgia a clássica pergunta: "O que você gosta de escutar?"
Antes de adentrar um pouco mais a fundo em relação à minha história com a banda, acho justo apresentar o disco desta resenha. Hoje vamos conversar sobre o sexto álbum de estúdio do Slayer, “Divine Intervention”, lançado em 27 de setembro de 1994.


A primeira vez que escutei um disco inteiro do Slayer não foi com Divine Intervention, francamente, ignorei este trabalho por muito tempo. Confesso, sempre tive um preconceito com a fase anos 90’s da banda, com exceção de “Seasons in the Abyss” (1990). Meu primeiro contato foi com o álbum “Raining Blood” (1986), lembro de escuta-lo no carro de um amigo. Não demorou muito para ser a vez de “Show No Mercy” (1983), com aquela capa diabólica e maligna que faz qualquer adolescente se sentir o máximo durante a audição. A partir de então, o grupo americano virou referência dentro das minhas preferências de Thrash Metal.
Divine Intervention apareceu muito, mais muito tempo depois, sendo o primeiro contato por meio de um exemplar que encontrei em um sebo de minha cidade. Sinceramente, apenas o comprei para completar a minha coleção pessoal, mas acabou se tornando um disco que aprendi a apreciar com o tempo.
Olhando para toda a discografia da banda, entendo que Divine Intervention não é a obra que melhor expressa o potencial do Slayer, ficando naquele meio-termo, explico: difícil era a tarefa do grupo em superar seu antecessor, Seasons In The Abyss, álbum que soma a maturidade musical com sucesso comercial. Mesmo assim, o trabalho não dispõe de um resultado tão controverso quanto aquele apresentado em “Diabolus In Musica” (1998), ficando na metade do caminho.
Conversando com alguns fãs da banda, percebo que esse disco atingiu o público de uma forma meio “8 ou 80”, com pessoas capazes de ignorá-lo completamente e aqueles que o defendem com unhas (garras) e dentes. A minha opinião? - Pois bem, vamos lá:
Sinceramente, penso que esse disco é subestimado. Sinto que algumas variáveis acabaram por influenciar a opinião do grande público em relação ao álbum. A primeira seria a saída do baterista Dave Lombardo, que foi substituído por outro grande nome do metal, Paul Bostaph.
Outro problema, que nem julgo ser um problema considerando que estamos falando de Slayer, é que a divulgação do álbum deixou a desejar, tendo em vista o seu conteúdo lírico. Diversas foram as dificuldades para a sua divulgação, tanto que o disco acabou sendo banido da Alemanha anos após seu lançamento.
Partindo para uma teoria que acredito com afinco, penso que o álbum entrou no balaio de trabalhos fracos da banda. Então, quando pensamos na época áurea do Slayer, vamos cair na rotina de mencionar sempre os cinco primeiros álbuns. O restante? "É fraco e soa como uma busca desesperada da banda em recuperar a boa forma dos anos 80’s". Por favor, não caiam nessa.
Hoje, enquanto analiso toda a discografia da banda, arrisco a dizer que o grupo americano, um dos pilares do famoso “Big 4”, é uma das bandas mais consistentes do Thrash Metal. Uma coisa é certa, o Slayer sempre nos brindou com agressividade, energia e sangue em seus trabalhos, e isso não é diferente em Divine Intervention.

A canção "Killing Fields" é o cartão de visitas para o que seria apresentado ao longo de todo o álbum. Bostaph faz questão de mostrar por que foi o escolhido para substituir Lombardo. A música caminha ao melhor estilo Slayer, alternando entre riffs rápidos e cadenciados, com direito a um solo esquizofrênico de Jeff Hanneman.
"Fictional Reality" soa como uma bicuda na bunda, sendo impossível não bater cabeça quando a faixa está tocando. O refrão é bem característico da banda, enquanto o solo parece ter sido extraído de qualquer faixa do Raining Blood. Inclusive, a faixa "Dittohead" segue igualmente a fórmula desenvolvida pelo grupo em seu terceiro álbum.
A faixa-título "Divine Intervention", um pouco mais cadenciada, exalta o trabalho de Bostaph e Kerry King, se aproximando muito do que vimos em seu antecessor, Seasons In The Abyss, principalmente em relação à melodia e ao vocal de Tom Araya. É uma de minhas favoritas de todo o álbum.
Classificaria "SS-3" como uma canção sem muito brilho, podendo ser julgada como uma faixa comum do Slayer. A mesma sensação tenho quando escuto "Serenity in Murder", músicas em que não há nada que já não esperávamos da banda. Não são exemplares ruins, isso não, apenas comuns (mais do mesmo).
Enquanto isso, "213" representa um ponto fora da curva no álbum, podendo ser denominada como uma “balada infernal”. Particularmente, gosto muito de sua construção rítmica, pois mesmo descendo o tom, sabemos que ainda estamos diante de algo poderoso que somente o Slayer é capaz de nos entregar.
Por fim, "Mind Control" volta com os dois pés na porta, para fechar o disco da melhor forma. Essa canção mostra como a banda estava bem ensaiada e sabendo como queria soar, ideia que podemos extrair de todo o disco. Algo que contribui para essa sensação é o tempo que a banda teve para trabalhar o novo álbum, um período de praticamente quatro anos desde seu ultimo lançamento.
Caso você, leitor, goste dos trabalhos do Slayer, mas nunca deu grande atenção a Divine Intervention, recomendo que dê mais uma chance, escutando-o atentamente. Tenho certeza de que alguma faixa poderá lhe surpreender positivamente, pois foi exatamente isso que aconteceu comigo.

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