Whitesnake | Slide It In (1984)

Nestes últimos dias, me encontrei voltando às origens, revisitando discos que por muito tempo ficaram esquecidos nas minhas audições. Confesso que meu gosto tem variado consideravelmente de uns tempos para cá, o que, de certa forma, é algo positivo, a considerar que todos precisam explorar outros gêneros ao longo da vida, até para evitar uma estagnação musical. Por mais que o Heavy Metal e o Glam Metal se façam presentes na maior parte do tempo, outros estilos acabaram ganhando maior destaque nos meus momentos de lazer. Atualmente, estou muito mais próximo da escola setentista, desde o rock "clássico" até o movimento punk desenvolvido na década.
Pontuo aqui que, conforme adiantado há pouco, o estilo conhecido como glam metal é sem dúvida alguma um dos meus favoritos, e quando olhamos para a história, diversas foram as bandas que tinham um som muito mais rock n’ roll clássico e passaram a “surfar” na onda do hard rock oitentista. Dentre os vários grupos que aproveitaram toda a cena de cabelos esvoaçantes e roupas espalhafatosas do hard glam, está o Whitesnake, uma das bandas mais importantes do mundo.
Aqui, não vou romantizar, eu não me recordo quando do primeiro contato com a banda, mas lembro qual música mais me impactou: “Still of the Night” (1987). O clipe era insano, assim como o instrumental, sendo a figura do vocalista David Coverdale impossível de se ignorar. Quando o assunto é ser um frontman, ele é "o cara". Contudo, mesmo com essa primeira impressão extremamente positiva, demorou um tempo para que o Whitesnake se tornasse figura carimbada na minha discografia pessoal.
Hoje, vamos conversar sobre um dos meus discos favoritos da banda: o incrível “Slide It In”, lançado em 16 de abril de 1984*.

Primeiramente, antes que os "Zé Fichas Técnicas" de plantão me matem: sim, a data correta de lançamento do disco é 30 de janeiro de 1984, data em que foi lançado na Europa. Porém, minha análise é sobre o álbum remixado lançado nos Estados Unidos. Para que o leitor não fique perdido, vou explicar.
Slide It In acabou sendo gravado em meio a diversos desentendimentos, que iam desde conflitos internos entre os integrantes até discussões sobre os rumos da banda. À época, o grupo desejava adentrar o mercado fonográfico americano, já que seu sucesso se resumia a alguns países da Europa e ao Japão.
O álbum estreou na Europa em janeiro de 1984, mas a gravadora Geffen Records, responsável por distribuí-lo em solo americano, não gostou da mixagem original e exigiu que fosse remixado. Dessa forma, Slide It In chegou aos Estados Unidos somente em abril de 1984, com uma mixagem diferente, realizada até por músicos diferentes.
A versão europeia, gravada em Berlim, na Alemanha no final de 1983, contava com David Coverdale nos vocais, Mel Galley e Micky Moody nas guitarras, Colin Hodgkinson no baixo, Cozy Powell na bateria e Jon Lord nos teclados. Enquanto a remixagem americana contou com o guitarrista John Sykes e o baixista Neil Murray, que haviam ingressado na banda após as saídas de Moody e Hodgkinson.
Portanto, considerando que a versão americana de Slide It In foi a que se tornou mundialmente conhecida, ela será o nosso referencial na presente resenha.
Meu primeiro contato com o álbum foi quando eu ainda era pré-adolescente. Àquela altura, todo o conhecimento que eu tinha sobre o grupo inglês se resumia a três músicas, mas isso não me impediu de comprar uma versão em CD de Slide It In que encontrei em um sebo. O preço estava bom, o estado também... por que não?
Escrever sobre esse álbum é, de certa forma, fácil, foram tantas audições. Acredito que esse é o disco do Whitesnake que eu mais ouvi na vida, juntamente com o clássico “Love Hunter”, de 1979. Lembro quando tive a oportunidade de assistir à banda ao vivo em 2019, no festival "Rock ao Vivo", que contava com Europe, Whitesnake e Scorpions. Foi um momento memorável, e a minha admiração pela banda apenas aumentou desde então.
Sobre o disco em si, eu o definiria como um álbum de hard rock, com alguns leves momentos de blues. Não consigo ver a banda sendo influenciada pelo glam metal que começava a entrar em alta naquele período, mas é possível notar uma sonoridade muito mais pesada, talvez justificada pela linha de bateria de Cozy Powell.
O álbum apresenta diversos singles, cabendo um destaque especial para a ordem das faixas, que traz uma fluidez impressionante para quem o escuta.
A canção “Gambler”, responsável por abrir a obra, na minha opinião, é a mais fraca do álbum. Refrão marcante, um bom teclado de Lord, mas nada além disso.
O disco segue com a faixa-título “Slide It In”. Todos os instrumentos soam como devem soar: riff de guitarra matador, baixo e bateria em perfeita harmonia e, novamente, outro refrão poderoso.
Standing in the Shadow” e “Give Me More Time” são excelentes músicas. Sinto que ambas envelheceram muito bem. A primeira desce um pouco o tom, composta por uma construção rítmica muito interessante, enquanto a segunda tem uma linha de guitarra muito moderna, com um riff imponente e um solo de tirar o fôlego.
Então, chegamos nelas, as queridinhas desta obra. O que falar de “Love Ain't No Stranger”? - Uma das canções mais icônicas do Whitesnake, responsável por embalar os corações de vários pais divorciados pelo mundo. Brincadeiras à parte, algo que me chama muito a atenção é a quebra que essa canção proporciona. Em um primeiro momento, parece mais uma balada comum, mas do nada, somos atingidos quase como por um soco, recebendo uma enxurrada de riffs poderosos e refrões marcantes.
Seguida de "Slow an' Easy", esta não fica devendo em nada. Confesso, sou suspeito para falar de qualquer música que se utilize de "bottleneck guitar", mas esta é, sem dúvida, uma das faixas mais fortes da banda, não podendo estar ausente sob hipótese alguma em seu repertório. Verdade seja dita, o que não falta neste disco são refrões marcantes, e essa canção é mais uma prova disso.

As faixas "All or Nothing" e "Hungry for Love" são legais e fazem total sentido quando pensamos no desejo da banda de conquistar o mercado norte-americano. Sinceramente, acho impossível que qualquer americano oitentista achasse essas músicas ruins.
A obra fecha com “Guilty of Love". Todas as vezes que escuto o riff introdutório desta música, sinto que estou diante de um cover de “Boys Don't Cry", do The Cure (1979). Estou maluco?
Para a promoção do álbum, foram lançados como singles Guilty of Love, Give Me More Time, Standing in the Shadow e Love Ain’t No Stranger. As faixas Slow an’ Easy e Love Ain’t No Stranger receberam alta rotação na MTV americana, o que contribuiu com a popularidade da banda.
Como costumo brincar: “um bom disco começa pela capa”. Gosto muito como a arte usada em Slide It In se apresenta simples à primeira vista e, conforme a absorvemos, revela uma riqueza de detalhes. Segundo Coverdale, foram contratadas duas modelos para realizar a fotografia, e ambas estavam apavoradas pelo fato de ter que suportar uma cobra no pescoço. Diz a lenda que esse teria sido o motivo de o rosto da modelo não aparecer na imagem, para que não fosse perceptível o seu horror à situação.
No fim, mesmo com todos os contratempos, Slide It In foi lançado e representou um grande passo para a banda. Seu sucessor, o autointitulado “Whitesnake” (1987), catapultaria o grupo para o estrelato, mas essa tarefa seria impossível sem Slide It In, um disco poderoso, sacana em suas letras "à la Whitesnake", e com pontos extremamente altos em sua composição.
Caso você, leitor, nunca tenha apreciado esse clássico, recomendo que não perca tempo e o escute imediatamente. Não irá se arrepender.

Comentários

  1. Espetacular, como sempre!!

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  2. Excelente leitura. Grande visão e fácil de compreender. 🤘🏻☠️🤟🏻🔥

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