Ozzy Osbourne | Bark at the Moon (1983)

Apresenta-se inevitável o desejo de atribuir um título a determinada obra ou artista. Muitas das vezes, para os fãs, essa necessidade representa uma forma de carinho do público, mas também pode ser oriunda de uma “sacada genial” da imprensa para vender títulos. Neste sentido, penso que devemos ser cuidadosos, rotular todo um trabalho pode ser extremamente perigoso, pois há grandes chances de se resumir algo que está longe de ser simples.
Claro, você, leitor, provavelmente deve conhecer diversas alcunhas que se tornaram verdadeiros sinônimos. Quando mencionamos “Príncipe das Trevas”, acredito que não existem dúvidas sobre a quem estamos nos referindo - John Michael Osbourne, Ozzy Osbourne.
Na minha opinião, não existira artista mais caricato, cuja imagem e a obra caminhem em tamanha harmonia. A figura de Ozzy é a pura complementação de seu som, sendo impossível desassociar qualquer música do Black Sabbath ou de sua carreira solo com a figura do madman. Porém, quando me perguntam como definiria a apoteótica (caótica) carreira do Príncipe das Trevas, sem dúvidas a indicaria como resiliente. 
O conceito de resiliência apresentado pelo Google é: “capacidade de se recobrar facilmente ou se adaptar à má sorte ou às mudanças”.
Não existe artista que melhor se encaixe na definição apresentada, se não Ozzy Osbourne. Em meio a brigas, vícios e lutos, o madman sempre se apresentou como uma verdadeira rocha, superando todas as diversidades e nos brindando com o melhor do heavy metal. Pense você, sair do nada e ajudar a fundar uma das maiores bandas do mundo; ser chutado dessa banda por estar enfrentando o luto pela perda de seu pai, e junto a isso, ter de enfrentar o maior de seus demônios - as drogas; encontrar forças para se reinventar com uma carreira solo brilhante; perder o seu melhor amigo em razão de uma tragédia; ser preso, enfrentar novamente as críticas e ver seus demônios batendo a porta novamente (cobrando um preço excessivamente alto); e, por fim, brindar aos milhares de fãs com um dos shows mais emocionantes de todos os tempos, mesmo que a sua condição de saúde não lhe permita sequer controlar os seus próprios movimentos. Isso, é OZZY OSBOURNE, PORR*!
Hoje, vamos conversar sobre o meu disco favorito do Príncipe das Trevas, o surpreendente “Bark at the Moon”, lançado em 14 de novembro de 1983.


O disco Bark at the Moon entra na lista dos meus dez álbuns favoritos de todos os tempos. Essa é uma afirmação que vem carregada pelos mais lindos sentimentos, digo isso não para enfeitar a resenha ou a minha relação com a obra, mas pelo simples fato de que esse disco é um verdadeiro marco em minha vida.
Voltando aos primórdios, meu primeiro contato com o heavy metal foi através da música “Paranoid” do Black Sabbath. Sendo um garoto muito curioso, não demorou muito para que eu tivesse contato com a carreira solo do então vocalista do Sabbath. A primeira canção que escutei do Ozzy foi a própria Bark at the Moon, cujo clipe me deixou em total estado de êxtase/medo (sempre fui uma criança medrosa).
Passado algum tempo, encontrei na casa da minha avó o vinil promocional do Rock in Rio de 1985, que, dentre os diversos títulos selecionados, estava novamente ela: Bark at the Moon. Eu poderia escrever umas cinco páginas e jamais conseguiria expressar em palavras a sensação de escutar algo tão poderoso vindo de uma vitrola, principalmente para um garoto de doze anos que começava a se apaixonar pelo rock n’ roll.
Mas minha história com o disco em si, começa no final de 2012. A essa altura, minha discografia pessoal começava a ganhar corpo, contemplando bandas como Iron Maiden, Metallica, Black Sabbath e AC/DC, porem tudo começaria a tomar outra forma, quando encontrei um exemplar de Bark at the Moon em CD em uma das livrarias de minha cidade, ele me custou a bagatela de R$ 14,90.
Lembro de estar acompanhado do meu melhor amigo, e ele me disse: “cara, isso aqui é bom, você deve comprar isso”. Foi o que fiz – aquela foi a trilha sonora das minhas férias de dezembro, e nunca mais consegui alcançar uma relação de tamanho apresso por um álbum do madman como com esse.  
Sobre o disco, vejo ele como um trabalho de transição na carreira solo de Ozzy. Para que seja possível explicar isso ao leitor, é preciso entender o contexto em que o álbum foi produzido e lançado.
Àquela altura, o nome Ozzy Osbourne já desfrutava do status de “fenômeno” na indústria fonográfica, isso porque seus dois lançamentos anteriores, “Blizzard of Ozz” (1980) e “Diary of a Madman” (1981), foram verdadeiros sucessos e lançaram Ozzy como uma das figuras mais influentes naquele momento. Importante lembrar que, quando de sua saída do Black Sabbath, a imagem do madman estava em declínio direto para o ostracismo. 
Muito dessa recuperação passa pelas mãos de Sharon Osbourne, esposa de Ozzy, que com a ajuda de seu pai, o famoso agente Don Arden, conseguiram promover o lançamento de seu primeiro disco solo (Blizzard of Ozz). Contudo, uma figura tem importância sem igual nessa história, estou falando do guitarrista Randy Rhoads.
Rhoads é peça chave para compreender o sucesso alcançado pelo madman em seus dois primeiros discos. Com sua técnica apuradíssima e um estilo próprio de tocar guitarra, Rhoads nos brindou com toda a sua genialidade nesses dois primeiros trabalhos. O primeiro, Blizzard of Ozz é uma obra incontestável quando o assunto é heavy metal, e isso passa diretamente pelas mãos do pequeno guitarrista, tendo como marca registrada, além da técnica refinada, sua Flying V preta com bolinhas brancas.
Então, tudo estava caminhando bem: Ozzy havia encontrado novamente o equilíbrio; superado a morte do pai, que acontecera quando ainda estava no Black Sabbath; começava um romance com a então empresária Sharon; e fez as pazes com o sucesso, cercado por músicos com um refino musical sem igual. O problema foi que tudo isso mudou na manhã do dia 19 de março de 1982
Após uma breve parada para consertar o ônibus que levava toda a banda, Rhoads e a cabeleireira Rachel Youngblood resolveram se aventurar em um pequeno avião que se encontrava na pista de pouso do local. A aeronave, pilotada pelo piloto particular/motorista do ônibus Andrew Aycock, acabou caindo. Não houve sobreviventes.
Portanto, quando Ozzy entrou em estúdio para gravar Bark at the Moon, percebemos que o contexto se apresentava muito diferente do esperado. O Príncipe das Trevas teria que lidar com a perda do amigo e virtuoso guitarrista de banda, sendo que, naquele momento, o madman ainda se culpava pelo ocorrido.
Para o seu lugar, foi escolhido Jake E. Lee, ex-guitarrista das bandas Ratt e Rough Cutt, ambas as bandas conhecidas dentro do gênero do glam metal. Desta forma, é totalmente compreensível a mudança de sonoridade que observamos em Bark at the Moon.
Em comparação ao seu antecessor (Diary Of Madman), o álbum dispõe de um som muito mais acentuado, com um abuso maior de sintetizadores. Entendo que a obra é uma transição entre o heavy metal dos dois primeiros álbuns e o hard rock executado no quarto disco, “The Ultimate Sin” (1986).
Particularmente, gosto muito da sonoridade alcançada nesse trabalho, desde os riffs executados por Lee até as composições “atribuídas” a Ozzy. Aqui, temos o ponto de maior polêmica sobre o álbum.
Observando os créditos das canções, todos são creditados ao frontman, todavia, a questão foi levantada por Lee e pelo baixista Bob Daisley anos depois. Ambos os músicos apontaram que, após a gravação do disco, a empresária Sheron teria obrigado o guitarrista a assinar um contrato em que abria mão dos direitos de suas canções, fazendo com que Ozzy as assinasse como único compositor. Segundo o guitarrista, ele não recebeu qualquer assessoria jurídica, sendo ameaçado a deixar a banda em caso de negativa.
No fim, quem acabou sendo realmente expulso foi o baterista Tommy Aldridge, que foi mandado embora logo após as gravações do álbum. Para o seu lugar, foi recrutado o baterista Carmine Appice, que após alguns shows da turnê foi igualmente dispensado. Appice aparece no clipe da canção Bark at the Moon.
A capa do álbum é um verdadeiro espetáculo. Seguindo a linha adotada em Diary Of Madman, essa conta com Ozzy fantasiado de uma espécie lobisomem, enquanto se apoia em um tronco, que está sendo iluminado pela luz da lua cheia ao céu. Agora, imaginem o impacto de ver uma arte como essa aos dez anos, é surreal.
O mesmo conceito trazido pela capa é empregado no vídeo clipe promocional da música Bark at the Moon. No clipe, é possível ver referência direta com o romance escrito por Robert Louis Stevenson, intitulado “O Médico e o Monstro” (1886). Ozzy já fez menções ao conto quando traçou uma analogia de si quando sóbrio e sob os efeitos do álcool.


O disco abre justamente com a faixa-título. A canção se tornou um verdadeiro clássico do mandman. Não à toa, com um riff de guitarra matador, a música se mostra um excelente cartão de vistas para a obra. A letra é tudo que esperamos quando o assunto é o Príncipe das Trevas.
O álbum segue com uma das minhas canções favoritas, “You’re No Differente”. Destaque mais que especial para o teclado do gênio chamado Don Airey. Sendo uma das músicas com maior uso de sintetizadores no disco, acredito que o método foi empregado com maestria.
Now You See It (Now You Don't)” e “Rock 'n' Roll Rebel” são compostas por riffs incríveis, se você quer heavy metal, aqui você encontra e de sobra. A segunda, em particular, tem meu riff de guitarra favorito em todo álbum, além de contar com um dos vocais mais marcantes de Ozzy em toda a obra.
A canção “Centre of Eternity” é uma excelente amostra do que é o álbum em seu todo. Uma curiosidade é que a música ficou conhecida como “Forever”, sendo assim denominada em diversas apresentações durante a turnê promocional do álbum. Gosto muito da sinergia apresentada entre Ozzy e Lee – uma composição com um bom riff e excelente refrão, sem erros.
Nesse disco, temos uma das baladas mais lindas já produzidas pelo madman. “So Tired” tem uma das letras mais profundas da carreira solo de Ozzy. Mesmo assim, entendo que não foi assertiva a decisão de usá-la para a promoção do disco.
Slow Down” soa como uma pedrada, ficando o destaque novamente para Airey e o baixista Daisley. A pouco mencionei que Centre of Eternity seria uma ótima demonstração do que o álbum propõe, junto a ela não posso deixar de colocar “Waiting for Darkness”, que em letra, composição, melodia e vocais, representa com perfeição o que podemos extrair de todo o disco.
Poderia parar por aqui toda a minha análise, tendo em vista que essas foram as músicas originalmente lançadas na versão americana. No entanto, impossível não mencionar “Spiders” e “One Up the 'B' Side”. A primeira foi lançada somente na versão europeia e, posteriormente, na versão japonesa como “Spiders in the Night”. Enquanto a segunda foi lançada como bônus na remasterização do disco em 2002, sendo essa a versão que adquiri em CD. One Up the 'B' Side é sem dúvida alguma a minha música favorita do álbum, sou apaixonado pelo refrão dela.

Ao leitor que sobreviveu até aqui, gostaria de encerrar essa resenha de uma forma diferente:

“Enquanto escrevo essa resenha, escuto toda a sua discografia, discografia essa, que escutei a minha vida toda. John Michael Osbourne se tornou um colega, um amigo, um primo distante, aquela pessoa que passamos a admirar pelo trabalho e pelo que nos proporcionou.

Assim como qualquer pessoa, errou, e muito, mas nunca escondeu de ninguém os demônios que enfrentava, sempre foi sincero com seus fãs, e por isso conquistou a administração de todos.

Ozzy Osbourne, “Príncipe das Trevas”, finalmente descansou, após anos lutando contra problemas de saúde. O “imortal” frontman do Black Sabbath e de uma carreira solo brilhante, foi para um lugar melhor. O que fica? Sua obra, algo que jamais será esquecido.

Você que leu essa resenha e se interessou pelo álbum pelo qual escrevo, por gentileza, escute-o, não por mim, não por você, mas por John Michael Osbourne.

Ozzy Osbourne, obrigado.”

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