Mötley Crüe | New Tattoo (2000)

Abençoados sejam os anos oitenta. A década que marcou o início de vários artistas incríveis, o ressurgimento de alguns e o auge de outros. Marca a reconstrução do heavy metal com o movimento N.W.O.B.H.M. (New Wave of British Heavy Metal), assim como, uma "reconstrução" do gênero hard rock com o glam metal.
O estilo glam metal independe do som, trouxe toda uma repaginação para a cena "rockstar". Agora, as jaquetas de couro pretas com calças jeans justas passavam a ganhar uma palheta de cor muito mais rica, combinando com toda a maquiagem e cabelos esvoaçantes que se tornavam cada vez mais comuns.
Artistas como Twisted Sister, Poison e Cinderella são excelentes exemplos para ilustrar toda essa energia e "estilo" que o glam metal emanou na penúltima década do século XX. Tiveram bandas que não perderam tempo e igualmente surfaram essa onda, é o caso do Kiss, que no início dos anos oitenta mudou sua caracterização radicalmente.
Na minha opinião, quando tiramos um recorte do Kiss na fase "Asylum", conjuntamente com o Twisted Sister, não existem melhores expoentes do hard rock oitentista para ilustrar o que foi essa “febre”.
Dentre os diversos grupos que surgiram no período, impossível não mencionar a importância e relevância do Mötley Crüe para a cena. A banda, formada na Califórnia em 1981, desfrutou de grande sucesso durante os anos oitenta e início dos anos noventa.
Conhecidos pelo visual espalhafatoso, que inicialmente apresentava uma vertente mais "ocultista" quando do lançamento do clássico "Shout at the Devil" em 1983, não demorou muito para o grupo adotar o estilo que estava em alta no momento, vinculando-os com uma das maiores banda da cena glam metal.
Seguindo uma métrica quase que infalível para os grupos do gênero, a banda enfrentou períodos obscuros de impopularidade, principalmente ao final dos anos noventa. O lançamento dos discos "Mötley Crüe" (1994) e "Generation Swine" (1997) não agradaram à maioria dos fãs, o que contribuiu para esse insucesso.  
Na minha opinião, o disco Mötley Crüe apenas apresenta uma sonoridade diferente do que estávamos acostumados quando comparado aos seus antecessores. Em contrapartida, acho Generation Swine um álbum fraco, mostrando uma banda totalmente descaracterizada, mesmo que a obra marque o regresso de Vince Neil frente aos vocais do Mötley.
Hoje, vamos conversar sobre o disco que resgatou a sonoridade clássica da banda, estou falando do álbum "New Tattoo" lançado em junho de 2000.

O meu primeiro contato com o grupo se resumiu aos seus cinco primeiros trabalhos. Com o lançamento do filme "The Dirt – Confissões do Mötley Crüe" em 2019, resolvi me aventurar nos discos mais impopulares de sua discografia. Além dos anteriormente mencionados Mötley Crüe e Generation Swine, procurei dar maior atenção a New Tattoo e "Saints of Los Angeles" de 2008.
Conforme adiantado anteriormente, o disco Generation Swine pouco me agrada, sendo uma obra bem "ignorável". Por mais clara que esteja a tentativa do grupo em se adaptar ao som daquele período, sinto que é um disco totalmente sem identidade.
Desta forma, New Tattoo representa o retorno da banda a uma sonoridade muito mais "Mötley". Gosto como o álbum é um hard rock "atualizado", se encaixando muito bem no que o mercado exigia naquele tempo. Mesmo sem desfrutar de grande sucesso comercial, entendo ser um disco essencial para banda, explico:
Penso que seria um fim melancólico ter como último trabalho um álbum como Generation Swine, que não é capaz de representar a banda em sua essência. Em contrapartida, New Tattoo é certamente um disco de transição, que adapta o som da banda e a prepara para o que veríamos em Saints of Los Angeles.
Para quem acompanhava o trabalho do grupo há época, sabe que a banda apresentou dois novos materiais na coletânea "Greatest Hits" lançada em 1998, sendo: "Bitter Pill" e "Enslaved". Ambas são verdadeiros prenúncios do que seria apresentado em New Tattoo.
Nesse período, fato que marcou a banda foi a saída do baterista Tommy Lee, que após apresentar divergências de ideias com outros membros do grupo, bem como enfrentar problemas na justiça, resolveu dedicar-se a projetos solo. Para o seu lugar, a banda convocou o lendário baterista Randy Castillo, que havia trabalho com Lita Ford e Ozzy Osbourne, com o qual gravou o meu disco favorito do Príncipe das Trevas - "The Ultimate Sin" de 1986.
Na minha visão, a entrada de Castillo na banda não gerou impactos negativos. Sempre é uma situação delicada analisar a saída de um membro como Tommy Lee, responsável por criar e forjar a máquina Mötley Crüe, mas acredito que a sua saída acabou sendo positiva à época.
Infelizmente, o álbum marca o último trabalho em estúdio de Castillo, que faleceu em 2002, em decorrência de graves problemas de saúde.

O disco abre com a música “Hell on High Heels”, o riff é pesado e um pouco mais lento, contando com um excelente refrão. Gosto da forma como a canção valoriza o vocal de Neil, assim como “Treat Me Like the Dog I Am”, que na minha opinião é música mais “Mötley Crüe” do disco.
A introdução da canção “New Tattoo” me remete brevemente ao violão inicial de “Slice Of Your Pie” do “Dr. Feelgood” – É apenas um comentário, não estou traçando um comparativo entre ambas as músicas.
"Dragstrip Superstar" é poderosa, mostra como Castillo se adaptou bem à sonoridade da banda, sendo uma das faixas mais “comerciais” do disco.
Me aventuro a realizar outra analogia, mas desta vez, vou forçar ainda mais a barra. A canção “1st Band on the Moon” me remete ao ritmo de “Lack of Communication” da banda americana Ratt. Óbvio, posso estar apenas “viajando”, talvez o recomendado seja eu ter uma desintoxicação de hard rock.
Como sempre, Mick Mars está avassalador quando o assunto é fazer riffs de guitarra, o que fica evidente em faixas como "Punched in the Teeth by Love" e "Porno Star". Esta última, rápida e agressiva, no verdadeiro estilo Mars.
Recomendo ao leitor que deixe todos os seus preconceitos de lado, existem belos discos após o aclamado Dr. Feelgood. Não sabendo por qual começar, a dica fica com ele, New Tattoo, um bom disco, que marca o retorno do Mötley Crüe ao seu som característico, sendo um trabalho surpreendente. 

Comentários

  1. Da vontade de ouvir todos os álbuns para poder perceber todos os detalhes e pontos que você apresenta. Novamente, mais um texto incrível!

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    1. Muito obrigado pelo carinho. Fico feliz em ter instigado essa curiosidade!

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