The Runaways | And Now... The Runaways (1978)
Para os leitores mais assíduos deste blog, não é novidade nenhuma a forma como procuro expor minhas opiniões sobre os mais diversos discos que aqui escrevo. Entendo não ser possível apresentar um ponto de vista sem antes contextualizar como ele foi construído.
A música é capaz de atingir um nível de sentimentalismo extremo, principalmente do ponto de vista nostálgico. Não adianta, existem discos/músicas que, quando escuto, têm como efeito uma verdadeira viagem no tempo, me remetendo ao sentimento que tive ao ouvi-lo pela primeira vez.
Toda essa introdução, não é para matar você, leitor, de tédio, mas para ilustrar o sentimento que tive essa semana, quando revisitei a discografia da banda que será alvo de análise.
Focando um pouco na parte "sentimentalista" que muitos álbuns carregam, isso pode facilmente criar uma visão distorcida quanto a qualidade da obra, explico - Acredito que existem discos que tem um primeiro impacto muito positivo a depender do momento em que você o escute, mesmo que na realidade ele não disponha de todo esse “potencial”.
Para exemplificar ainda mais o que estou narrando, acho melhor apresentar a obra que será comentada, e confesso, foi uma das resenhas mais difíceis que já fiz.
Sobre a banda, seria essa uma das mais importantes da história do rock 'n' roll, composta apenas por integrantes femininas, que abriram portas para outros diversos grupos que vieram depois, a The Runaways.
Hoje vamos conversar sobre o quarto e último disco da banda, o controverso “And Now... The Runaways” lançado em dezembro de 1978*.
Formada em Los Angeles em 1975, o grupo contava originalmente com Cherie Currie nos vocais, Joan Jett e Lita Ford na guitarra, Micki Steele no baixo e Sandy West na bateria. A The Runaways se destacou não somente pelo fato de ser uma banda composta integralmente por mulheres, algo pouco comum à época, mas por um som pesado, que se aproximou muito do movimento punk que estava em alta tanto nos Estados Unidos como na Europa.
Falando um pouco da minha primeira experiência com o som da banda, essa se deu de forma “inversa” ao tradicional. Em verdade, meu primeiro contato foi com a ex-Runaway, Joan Jett, que após a dissolução do grupo em 1979, mergulhou em uma carreira solo meteórica, colecionando hits como "Bad Reputation", "I Hate Myself for Loving You" e "I Love Rock ’n’ Roll”.
Admito, por muito tempo acabei ignorando a discografia da The Runaways, limitando o meu conhecimento à canção "Cherry Bomb", música de maior sucesso do grupo. Contudo, faz alguns anos que meu interesse sobre a banda aumentou de forma considerável, fazendo com que eu criasse uma visão um pouco distorcida sobre certos álbuns.
Lembram que iniciei a resenha sob a afirmativa de existirem discos capazes de gerar um impacto tão positivo que criam uma falsa realidade em relação ao seu real desempenho? – É exatamente essa a minha relação com And Now... The Runaways.
Na última sexta-feira, aproveitei para revisitar a discografia da banda, momento em que pude analisar mais friamente álbum por álbum, de modo a vislumbrar certos detalhes que me haviam passado desapercebidos.
Sempre me agradou como And Now... The Runaways soava, achava que era um disco com letras marcantes e de refrãos excelentes. Na parte de riffs, entendia que havia poucos momentos de destaque, o que destoava de seus antecessores. Todavia, ao ouvi-lo atentamente, fica evidente que o álbum está longe de ser uma obra compacta e linear, assim como “The Runaways” (1976), “Queens of Noise” (1977) e “Waitin' for the Night” (1977).
Toda essa discrepância pode ser justificada pelos momentos de turbulência enfrentados pela banda naquele período. Àquela altura, o grupo passava pelas mais diversas instabilidades internas, desde a saída da baixista Vicki Blue, até divergências em relação ao som que o grupo deveria seguir. Enquanto Jett gostaria de uma The Runawyas soando muito mais punk rock, Lita Ford e Sandy West queriam manter a fórmula hard rock que estava sendo feita pela banda.
A história nos mostra que uma banda a caminho da dissolução, com seus integrantes em constante conflito, é receita perfeita para um disco "fraco". Não à toa, que And Now...the Runaways dispõe de três covers em seu repertório, podendo indicar um forte indicio de dificuldades na criação de novos materiais.
Muito desse disco ser um dos meus queridinhos, mesmo com todas as adversidades narradas a pouco, é em razão de duas músicas em específico. A faixa “Saturday Night Special” conta com um refrão poderoso, capaz de sacudir o esqueleto até dos mais desanimados, sendo a minha música favorita da banda.
A outra canção é “I'm a Million”, que desce o tom em comparação as demais, apresentando um groove um pouco mais lento, se assemelhando em muito a uma balada punk.
Em relação aos covers, esses foram: "Eight Days a Week" dos The Beatles, "Mama Weer All Crazee Now" do Slade e "Black Leather" dos Sex Pistols.
Dentre as canções, entendo que Eigt Days a Week seria a mais fraca, acreditando até mesmo que a sua ordem dentro do disco foi escolhida de forma equivocada.
Mama Weer All Crazee Now compõe muito bem o repertório, sendo uma boa escolha quando olhamos para o estilo da banda, sendo a música, quase um sinônimo de sucesso para todos os que se aventuraram a gravá-la.
Por fim, o último cover fica com Black Leather, responsável por encerrar o álbum. A música é poderosa, mostrando todo o potencial que a banda estaria desperdiçando com a sua dissolução. Aqui, abro um parênteses, de maneira a indicar ao leitor que escute a versão de Black Leather gravada pelo Guns N’ Roses, presente no disco "The Spaghetti Incident?" (1993).
Para aqueles que gostam do álbum, entendam, é um bom trabalho, mas quando comparado aos demais é nítida a sua fragilidade.
Gostaria de destacar um detalhe em relação ao lançamento de And Now...the Runaways. O disco foi lançado primeiro na Europa e posteriormente no Reino Unido e Japão. Todavia, seu lançamento não aconteceu nos Estados Unidos até 1981, quando esse foi relançado com o título de “Little Lost Girls”, contando com uma capa alternativa e faixas em ordem distinta da versão original.
Impossível cravar And Now...the Runaways como melhor disco da banda, muito menos poderia indicá-lo como ideal para conhecer o som da The Runaways, mas recomendaria para aqueles que já ouviram a obra e a desconsideraram, dar uma revisitada com calma, atentando para as faixas que mencionei anteriormente, tenho certeza que será uma audição válida.



que texto incrível! Você mandou muito bem em conectar o impacto emocional com o contexto do álbum. Concordo, Saturday Night Special e I’m a Million são sensacionais, e sua análise dos covers foi perfeita – Mama Weer All Crazee Now é a cara da banda! Dá vontade de ouvir tudo de novo. Parabéns, ficou demais!
ResponderExcluirSempre fico muito feliz em receber esse tipo de comentário. Muito obrigado pelo apoio!
ExcluirSua resenha tem poder de fazer qualquer um revisitar esse álbum com outros olhos!! Ficou sensacional!
ResponderExcluirComo vc introduz o leitor no tema e o deixa confortável na leitura é surreal! Mais um texto incrível!
ResponderExcluirMuito obrigado!
ExcluirCada vez melhor nos detalhes e nas palavras!!! você surpreende! parabéns!👏👏
ResponderExcluirMuito obrigado pelo carinho!
Excluirmuitoooo bom!!
ResponderExcluirMuito obrigado!
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