Dr. Feelgood | Be Seeing You (1977)

Aprendi desde cedo que indagar qualquer pessoa quanto à sua idade é uma deselegância tamanha, de forma que irei propor ao leitor o seguinte exercício: imagine você, um jovem inglês que perambula pelas ruas de Londres apenas procurando um lugar para espairecer.
Para dar maior contexto visual, estamos na década de setenta, momento em que a Inglaterra passava por uma grave crise econômica, e, por padrão, a grande maioria dos jovens está sem qualquer tipo de perspectiva dentro da sua realidade, principalmente aqueles que faziam parte da classe operária.
Assim, a ideia de adentrar a um pub londrino parece uma boa dica, mas qual seria a trilha sonora ideal para a ocasião? Estamos falando da terra dos The Beatles, The Who, The Rolling Stones e The Kinks.
Fujo do tradicional, talvez a dica fique com escutar um som legal, que soe como feito para pessoas legais, para aqueles que se sentem descolados. Por isso, quando penso em todas as nuances que acabo de retratar, uma das bandas que mais me vem à mente é o Dr. Feelgood.
A banda formada no início dos anos setenta pelo vocalista Lee Brilleaux e o guitarrista Wilko Johnson ficou famosa por suas apresentações no círculo de pubs londrinos, tanto que em sua grande maioria o grupo é definido como “Pub Rock”. Particularmente, acho meio antiquado definir o estilo de uma banda pelo local de suas apresentações, ou então, tentar defini-la a partir da sonoridade comumente presente nos locais em que tocam. Vejo o som do Dr.Feelgood muito mais próximo de um “Blues-Rock”.
Evidentemente, quando escutamos qualquer disco da banda, é notória a influência do blues sobre a guitarra de Wilko Johnson, influência essa que perdurou mesmo com a sua saída do grupo. A sonoridade do Dr. Feelgood, consolidada principalmente a partir do seu quarto disco “Sneakin' Suspicion” lançado em maio de 1977, é de um blues-rock “ácido”, tanto na construção rítmica como lírica.
Para conhecer melhor esse fantástico grupo que marcou a cena dos pubs londrinos nos anos setenta, vamos conversar sobre o quinto disco da banda, “Be Seeing You” lançado em outubro de 1977.


O sentimento que o Dr. Feelgood transmite é de ser uma banda “legal”. Visual e sonoramente, são descolados, agressivos, mas não ao ponto de representarem um problema para o conservadorismo britânico, assim como foi o punk rock no mesmo período.
Como dito há pouco, vejo que a banda atingiu sua maturidade musical apenas em seu quarto álbum, lançado no mesmo ano que Be Seeing You. Por mais que esse marque a estreia de Gypie Mayo frente à guitarra do grupo, sinto que a sua entrada pouco impactou na sonoridade da banda.
Ambos os álbuns mencionados traçaram a linha condutora para toda a discografia do Dr. Feelgood. Aqui, não posso deixar de expressar a minha perplexidade em relação ao avanço do grupo no mercado internacional. Acredito que muito do esquecimento sobre a banda é em razão de seu insucesso em adentrar no mercado americano, sendo esse meu motivo de maior estranheza.
Não estou querendo cravar um possível sucesso da banda nos Estados Unidos, mas julgo que haveria mercado para o som e características do grupo. Sabemos que atingir a América era sinônimo de sucesso naquele período, talvez isso possa justificar muito da dissolução do grupo, e principalmente, a alta rotatividade de seus integrantes.
Entrando um pouco mais a fundo na sonoridade de Be Seeing You, o álbum se destaca pelo blues-rock que virou marca registrada da banda, não sendo possível deixar de mencionar como os vocais de Brilleaux são perfeitos para o estilo do grupo.
O vocalista merece menção à parte, principalmente quanto às suas contribuições nas composições da banda. Gosto muito da forma como Brilleaux estabelece uma linha inteligente, mas, ao mesmo tempo, sacana em suas criações. A música “She's a Wind Up” é um excelente exemplo para ilustrar o que estou falando.
Ainda sobre a faixa, vale o destaque para as linhas de baixo e guitarra desenvolvidas por Sparks e Mayo. O dueto estabelecido por ambos é o que chefia o som do álbum, sendo sempre acompanhados pelo direcionamento lírico de Brilleaux.


A canção "I Don't Want to Know" segue essa mesma linha, acrescida de uma gaita de boca. "My Buddy Buddy Friends" dispõe de uma sonoridade muito similar à faixa a pouco mencionada, ficando cada vez mais clara as fortes influências do blues norte-americano no som do Dr. Feelgood.
Falando agora sobre estilo, quando da audição de "That's It, I Quit" e "Hi-Rise", não é possível não vislumbrar a sua semelhança com o som característico da “Surf Music” dos anos sessenta. O que reforça meu espanto pela banda não ter alçado voos maiores na indústria fonográfica americana. 
Por fim, a minha faixa favorita fica com "As Long as the Price Is Right". Sonoramente, ela me agrada muito, arrisco dizer que se assemelha com algumas composições presentes na primeira fase do AC/DC. Novamente, destaco o baixo de Sparks, que atua quase como um metrônomo para a banda. 

Caso você, leitor, nunca tenha tido a oportunidade de ouvir o som do Dr. Feelgood, recomendo que comece pelo disco Be Seeing You, tenho certeza de que é um álbum muito fidedigno à sonoridade que a banda estabeleceu ao longo de sua vasta discografia.

Comentários

  1. Fiquei curiosa com o álbum e a banda, com este contexto inicial, fica mais fácil perceber os detalhes sobre a banda. Texto incrível, como sempre!

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  2. Assim como o Dr. Feelgood deixou sua marca com autenticidade, você também inspira com suas palavras, como riffs que ressoam e transformam. Sua paixão por música é poderosa e única, criando arte que toca o coração dos leitores. Continue escrevendo com a energia de quem vive o rock. Rock on!

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    1. Muito obrigado pelo comentário incrível. Fico extremamente grato por esse reconhecimento.

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  3. Seus textos estão cada vez melhores! Manja muito!!!

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  4. Parabéns Vinicioo!!! Ótimo conteúdo!

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