Social Distortion | Hard Times and Nursery Rhymes (2011)

A resenha de hoje começa com uma pequena história: O ano é 2009, eu tinha aproximadamente nove anos e era um apreciador do mundo dos games. Objetivando conseguir um dinheiro para comprar um joguinho na lojinha de "1.99", fui direto ao caixa eletrônico de qualquer criança - Meus pais. Após muito insistir, consegui lograr a quantia de dez reais, um montante de saltar aos olhos para um garotinho tão novo. Então, com o dinheiro em mãos, fui contente na primeira loja de videogames que encontrei, em busca de uma versão pirata do “Guitar Hero III: Legends of Rock”, lançado originalmente em 2007. O que eu não fazia a menor ideia é de que o jogo mudaria a minha vida sempre.
Foram minutos, horas e dias a frente da televisão com meu PlayStation 2 funcionando a todo vapor. Lembro da sensação incrível que o jogo transmitia, me sentia o maior rockstar que já havia habitado o planeta terra. Conforme avancei no jogo encontrei não somente a diversão, mas um estilo de vida, uma paixão que partilho até os dias de hoje. Sinto não ser possível narrar o sentimento que tive com o meu primeiro contato com bandas/artistas como Kiss, Heart, The Who, Black Sabbath, Guns N’ Roses, Living Colour, Slayer, Metallica, entre outros gigantes da música.
Passados os dias, não demorou muito para eu selecionar as minhas músicas favoritas dentro do vasto repertório do jogo. Dentre elas, estava uma canção que era apresentada na fase inicial - “Story of My Life”. Inicialmente, a minha pesquisa quanto a Story of My Life se limitou a recorrentes acessos ao clipe no YouTube, de modo que passei a ouvir o som quando não estava à frente da televisão jogando.
Acredito que foi por volta de 2012 quando resolvi pesquisar mais sobre a grupo por detrás desta canção. A banda eu apenas conhecida de nome, Social Distortion, mas uma breve pesquisa já foi suficiente para despertar um maior interesse sobre a carreira dos norte-americanos, que aparentemente tinham seu som ligado ao punk rock, o que me causou certa estranheza, haja em vista, que Story of My Life era até então a minha única referência, uma canção muito mais ligada ao rock ‘n’ roll.
Hoje vamos conversar sobre o disco que me recepcionou a discografia do grupo, fazendo com que eu entendesse melhor o que era o Social Distortion, estou falando de Hard Times and Nursery Rhymes, lançado em janeiro de 2011.  
Antes, preciso contextualizar um pouco como era meu método de pesquisa naquele tempo. Apesar de já ter meus primeiros CD’s na estante, na época era difícil para um jovem de 11 anos comprar os álbuns que desejava. Primeiro, pelo dinheiro, que era firmemente controlado pelos meus pais, não sendo visto com bons olhos ao ser trocado em discos de bandas de rock. Segundo, que os discos do Social Distortion acabavam chegando com pouca facilidade em livrarias, local que inicialmente serviu de porto para as minhas primeiras caçadas. Logo, você pode se perguntar quanto a internet, que poderia ser um excelente meio para encontrar tudo que eu procurava, correto? – Não exatamente. Sim, havia muita coisa na internet, o problema é que eu era apenas jovem que nem sequer havia chegado à adolescência direito, de modo que não dispunha dos conhecimentos necessários para explorar a ferramenta da maneira correta.
Isto posto, a minha maior fonte eram clipes no YouTube, torcendo para que o algoritmo do site me recompensasse com sugestões de músicas da mesma banda. Neste sentido, confesso que não tive felicidade maior quando recebi a indicação de uma música intitulada “Machine Gun Blues”, justamente a quinta faixa do disco Hard Times and Nursery Rhymes.
O clipe é um espetáculo à parte, assim como a música Machine Gun Blues. No vídeo, a banda está toda caracterizada como ladrões dos anos 30’s, conforme narra a letra da própria canção. A produção é sem dúvida alguma um prato cheio para quem gosta de um bom vídeo clipe.
Outro clipe que é excepcional é o da canção “Gimme the Sweet and Lowdown”, que retrata a evolução de um jovem, narrando as suas aventuras e desventuras ao longo da vida. O mais interessante, é que o clipe está repleto das mais diversas referências como Joey Ramone, Johnny Cash e Hank Williams, que marcaram a vida de Mike Ness, sendo o clipe quase uma autobiografia do frontman.

Hard Times and Nursery Rhymes marca o regresso do Social Distortion ao estúdio, após quase sete anos do lançamento de “Sex, Love and Rock ‘n’ Roll” em 2004. Inicialmente o disco estava previsto para ser lançado em 2007, contudo, a sua estreia foi adiada para 2010, sendo estendida posteriormente para janeiro de 2011.
Por mais que essa seja uma característica que permeia a discografia da banda - o espaçamento considerável entre um trabalho e outro - naquele período o grupo se encontrava com uma agenda movimentada, marcada por vários shows.
Destarte, durante as primeiras sessões do álbum a banda sofreu com a baixa do baterista Atom Willard, que saiu da banda para dar maior atenção a outros projetos, o que justifica dilação de tempo para o lançamento do novo trabalho. Para ocupar a bateria, o grupo decidiu pela escolha de David Hidalgo Jr., que caiu como uma "luva" para a banda, se encaixando com perfeição no cargo deixado por  Willard.
O disco é responsável por um retorno triunfal da banda, não somente pelas críticas em sua maioria positivas, mas por ser o trabalho de maior sucesso comercial do grupo. Ademais, o álbum marca um Social Distortion muito maduro, que apesar de apresentar as suas velhas influências de blues e rockabilly, procura inovar em alguns elementos, conforme analisaremos mais à frente. Existem informações de que o disco foi formado por novas composições conjuntamente com canções que não foram aproveitadas em “Sex, Love and Rock ‘n’ Roll”.

Seguindo o som clássico da banda, as músicas “Bakersfield” e “Far Side of Nowhere” cumprem com as expectativas quando o assunto é Social Distortion. Ainda, canções como “Machine Gun Blues” e “Alone and Forsaken” me surpreem positivamente, principalmente Machine Gun Blues, que conforme adiantado a pouco, foi lançada como single, ganhando papel de destaque na divulgação do álbum.


Entretanto, é impossível não destacar duas faixas deste trabalho, que na minha opinião são responsáveis por trazer um elemento único ao som da banda: “California (Hustle and Flow)” e “Can’t Take It With You”. Aparentemente, são músicas normais, mostrando traços que já são mais que característicos no som do grupo, todavia, o destaque fica por parte dos backing vocals. Aqui, os vocais de apoio se sobressaem, principalmente por se tratar de vozes de apoio femininas, de modo que a sua participação é extremamente marcante, mas sem ser algo que chega ao ponto do exagero. O recurso é usado com maestria, principalmente na canção Can’t Take It With You, em que Mike Ness mostra toda a sua aptidão quando o assunto é rockybilly.
Hard Times and Nursery Rhymes foi a estreia da banda pela gravadora Epitaph Records, porém, estamos em 2023 e o disco marca o último trabalho de estúdio lançado pelo grupo, que apesar de realizar apresentações e turnês com certa frequência, nunca mais presentou os fãs com novos materiais.
Admito, quando o assunto é Social Distortion, preciso lutar com afinco para não ser imparcial ao analisar o som do banda, mas posso garantir ao leitor – Hard Times and Nursery Rhymes é um disco incrível, da mais alta qualidade. Caso você nunca tenha escutado qualquer som dos californianos essa pode ser uma excelente oportunidade. Não sabendo por onde começar, o álbum que acabo de lhes narrar é uma ótima escolha.

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