Plasmatics | Coup d'Etat (1982)

Gêneros como heavy metal e o punk rock possuem como sua marca registrada a atitude, verificada em suas construções rítmicas, composições, mas acima de tudo em suas apresentações. Espetáculos megalomaníacos do Iron Maiden ou shows simples e diretos do Ramones, a postura enérgica que nos atravessa a cada acorde, timbre e refrão são implacáveis quando falamos de metal ou punk.
O punk rock contém um elemento que na minha opinião é quase uma chamarisco a mais - o visual - óbvio, a atitude punk dispensa qualquer comentário. Aqui, o conceito do “Do It Yourself” é empregado com maestria, mostrando que o rock ‘n’ roll não poderia deixar as suas essências de lado, o que quase aconteceu em meados dos anos 70’s. Durante o período, bandas tradicionais mergulharam o seu som no progressivo, com produções gigantescas que duravam mais de três horas. O punk rock chega como uma resposta imediata, mostrando uma outra realidade.
A ideia por detrás do gênero é muito maior do que simplesmente ir contra os padrões da época, mas isso é conversa para outra resenha, a considerar que perderia linhas e parágrafos apenas por adentrar superficialmente ao movimento. O que importa, é entender que as bases do punk rock surgem justamente como um contraste do som que estava em alta naquele tempo, o que resulta em músicas rápidas, com poucos acordes, muitas vezes sem solos de guitarra e com letras que em sua grande maioria eram de protesto.
Durante a minha adolescência o punk foi sem dúvida alguma um dos gêneros predominantes dentro da minha discografia pessoal. Lembro o quão magnífica foi a primeira experiência ao escutar bandas como Sex Pistols, Ramones, Dead Kennedys, Bad Religion e Social Distortion. Acredito que uma coisa tenha ficado clara com a minha afirmação – Minha escola no punk rock é a norte-americana. Por mais que eu tenha escutado muitas bandas que fizeram parte do movimento punk inglês, movimentos como o “UK82”, a cena que se desenvolveu nos Estados Unidos, principalmente em Nova York, sempre me chamou muito a atenção.
Entre os vários grupos que surgiram no período, existe uma banda que possui uma importância sui generis, que ficou marcada sobretudo pelas apresentações avassaladores no palco, que muitas vezes  deixavam a desejar musicalmente, mas que visualmente causavam um impacto sem igual. Estou falando da banda Plasmatics.
A banda liderada pela lendária vocalista Wendy O. Williams, ficou marcada na história do punk rock mundial por trazer não somente visuais agressivos, mas apresentações que contavam com Williams quebrando tudo no palco. Ademais, a vocalista é lembrada por realizar as suas apresentações parcialmente nua, sempre com seu moicano nas alturas, corte que virou uma assinatura da frontman. 
Com o objetivo de contar mais sobre o trabalho do grupo, selecionei o meu disco favorito dentro da discografia da banda. Hoje vamos conversar sobre o poderoso “Coup d’Etat” lançado em 1982. 


Coup d’Etat foi o primeiro álbum do Plasmatics que eu ouvi. Acredito que tinha meus 13/14 anos quando escutei o terceiro trabalho da banda, graças ao cover da música No Class presente na obra, um música do Motörhead. Lembro de ter sido prontamente impactado pelos vocais de Williams, a considerar, que as poucas bandas com vocais femininos que havia ouvido até aquele momento, não passavam nem perto da agressividade com que a vocalista do Plasmatics projetava a sua voz.
Todavia, por mais que eu tenha perdido um bom tempo apontando a importância da banda dentro do movimento punk norte-americano, confesso que o disco aqui em debate está longe de ser um exemplar punk. Por mais que ainda seja possível perceber algumas influências de punk rock, é inegável que o álbum apresenta características muito mais ligadas ao heavy metal. Não tenho a menor dúvida que isso contribuiu muito para que a minha primeira experiência com a banda fosse formidável.
O álbum de estreia do grupo, “New Hope for the Wretched” (1980), apresenta um Plasmatics enraizado no punk rock, mostrando um som muito mais ligado ao estilo, com diversos elementos característicos do gênero. Porém, já é possível perceber que tais características começam a ser deixadas de lado em seu segundo trabalho “Beyond the Valley of 1984” (1981), que começa a flertar com o metal.
Em 1981 a banda lança o EP “Metal Priestess”, que é quase um prenúncio para o que seria apresentado Coup d’ Etat, com o grupo fazendo um som totalmente ligado ao heavy metal, desde as suas construções rítmicas até a sua composição.


Assim como Debbie Harry é o pilar que sustenta a imagem do Blondie, algo parecido acontece com o Plasmatics em relação a Wendy O. Williams. Quando analisamos Coup d’ Etat, resta-se evidente que a vocalista se sobressai quanto ao instrumental em todas as músicas. A impressão é de que o instrumental do Plasmatics sempre acaba sendo engolido pelos vocais de Williams.
Mesmo assim, é possível destacar algumas músicas em razão de sua composição rítmica, principalmente o trabalho do guitarrista Richie Stotts. Canções como “Stop”, “Rock N Roll” e “Mistress Of Taboo”, apresentam estruturas que são capazes de extrair o melhor da vocalista, com uma banda muito mais madura, principalmente quando em comparação aos seus discos anteriores.
Mistress Of Taboo, mostra um lado mais comercial o grupo. Com refrãos marcantes e com um vocal não tão agressivo de Williams. Enquanto a faixa “Country Fairs” é composta por quebras rítmicas bruscas, com a vocalista alternando entre seu vocal natural e o seu estilo mais agressivo.
O disco é o primeiro e o único lançado com selo da Capitol Records, isso porque, Coup d’ Etat teve um número de tiragens muito abaixo do esperado pela gravadora. Contudo, a banda ainda conseguiu excursionar com o Kiss, apoiando a banda durante a turnê “Creatures of the Night Tour”. Esta tour foi importante não somente para dar visibilidade a banda, como também para a aproximação de Wendy O. Williams do baixista Gene Simmons, que viria a produzir o seu disco solo “WOW” em 1984.
Para a divulgação de Coup d’ Etat, a banda gravou um clipe para a música “The Damned”. O vídeo é caótico, representando muito bem o estado de espírito da banda. A produção apresenta um cenário que parece quase uma continuação do primeiro Mad Max de 1979.


Destarte, o terceiro trabalho do grupo nova-iorquino é um excelente prato para quem gosta de um bom heavy metal, principalmente para aqueles que assim como eu, amam tanto o heavy metal como o punk rock. É um trabalho consistente, muito bem produzido pelo experiente produtor Dieter Dierks, o que me faz questionar o porquê deste álbum não alçar voos melhores nas paradas. 
Independente de gosto, reconheço que o disco não é uma obra absoluta, de maneira que a própria banda faz um som que não parece querer se enquadrar no mainstream da época, mas ainda assim, é um clássico dentro do metal, não podendo ser ignorado por aqueles que gostam de discos dos primórdios do heavy metal. Então, fica a dica: Aproveite para escutar um dos álbuns mais legais do metal, tenho certeza que este trabalho tem potencial para lhe cativar. 

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