AC/DC | Flick Of The Switch (1983)

A resenha de hoje é a mais difícil entre todas as outras que já escrevi para este blog. A dificuldade a que me refiro, não é quanto a complexidade do disco a ser analisado, pois julgo essa tarefa até certo ponto fácil, mas por se tratar de uma obra que faz parte da discografia de uma das maiores bandas do mundo – AC/DC.
A responsabilidade que tenho neste exato momento é quase que inenarrável, pois preciso descrever, julgar, informar e opinar sobre a “banda da minha vida”. Confesso que já estou entregue a uma escrita totalmente parcial, que mesmo sendo coerente e realista, encontra-se absorta no mais puro sentimento. O AC/DC se fez presente em minha vida desde o momento que compreendi o que significa música, não levando muito tempo para que os australianos passassem a figurar como a banda nº 1 na minha discografia pessoal.
Visando poupar o leitor de linhas e mais linhas apenas fazendo reverências e exaltações ao grupo, selecionei um disco no mínimo peculiar dentre os vários clássicos da banda. Hoje vamos conversar sobre “Flick Of The Switch”, lançado em agosto de 1983.
Apesar de ser um dos discos mais esquecidos do AC/DC, ele foi o segundo álbum da banda que eu comprei, sendo o primeiro com o vocalista Brian Johnson. Lembro como se fosse hoje: Estava prestes a viajar, então, para não passar horas e horas em completo tédio dentro de um carro, fui direto para o shopping comprar alguns CD’s. Chegando na loja, o primeiro disco que me chamou a atenção foi um que nunca havia visto – Era um álbum do AC/DC, porém, a sua arte era toda feita como um desenho a lápis, que mostrava o guitarrista Angus Young puxando uma espécie de interruptor – por mais simples que fosse a capa do disco, fiquei curioso para saber como era, a considerar que nunca havia o visto e não tinha noção alguma do repertório que compunha a obra. 


O álbum está longe de ser um clássico. A grande maioria o considera como o disco mais fraco dentro da discografia do grupo australiano, porém, antes de fazer qualquer julgamento de valor, é importante entender a fase que o AC/DC vivia até aquele momento.
No início dos anos 80’s, o AC/DC era uma das maiores bandas do mundo, muito pelos lançamentos avassaladores de “Back in Black” e “For Those About to Rock (We Salute You)”, que alçaram a banda ao estrelato. Todavia, tudo tem um preço, gravar um disco na qualidade em que os trabalhos foram produzidos começou a ser um peso para o grupo, gerando desgastes internos e bloqueios criativos.  
Desde de seus primórdios, o AC/DC é conhecido por fazer um rock ‘n’ roll “puro”, um som que soasse direto e pesado. Por mais que discos como Back in Black tenham se tornado um verdadeiro sinônimo de rock ‘n’ roll, essa superprodução não agradava muito os irmãos Young.
Quando a banda entrou em estúdio para gravar o disco que seria o For Those About Rock (We Salute You), o grupo tinha a difícil tarefa de superar o seu lançamento recente Back in Black, que a cada semana batia recordes e mais recordes de vendas. Não demorou muito para que esta tarefa se mostrasse praticamente impossível. O produtor Robert John Lange, popularmente conhecido como Mutt Lange, que havia produzido os dois discos anteriores (Highway to Hell e Back In Black), entrou no estúdio buscando um álbum que fosse capaz de continuar a sua linhagem com excelência, o que efetivamente aconteceu, tanto, que For Those About Rock (We Salute You) é um disco indispensável da discografia do AC/DC. Mas a sua produção acabou gerando desgastes entre os membros, principalmente pelo fato da banda enfrentar uma série de bloqueios criativos durante as sessões de gravação, bloqueios que atingiram principalmente o guitarrista Angus Young. 
Com isso, Malcolm Young não demorou muito para tomar um posicionamento quanto a situação. Após a estreia do novo álbum, Malcolm dispensou Mutt Lange, que acabaria posteriormente trabalhando com os britânicos do Def Leppard. Para Malcolm estava tudo muito claro: O AC/DC deveria voltar a soar simples e direto. Foi justamente com essa mentalidade que a banda entrou no estúdio para gravar Flick Of The Switch.
Essa ideia funcionou em um primeiro momento, de modo que a gravação do disco foi muito mais tranquila em comparação às anteriores. A produção ficou por conta de Tony Platt, que foi “fiscalizado” de perto por Malcolm, para que aquele deixasse o disco o mais básico possível. O problema é que as turbulências internas dentro da banda estavam longes de acabar, tanto, que pouco antes do lançamento do disco, o baterista Phil Rudd saiu do grupo, em razão de reiterados desentendimentos com o líder Malcolm Young. Sendo assim, a banda encontrava-se sem baterista, restando pouco tempo para o início da turnê norte-americana.
O substituto escolhido para ocupar o espaço deixado por Rudd foi o inglês Simon Wright. Wright se destacou entre os vários bateristas que fizeram o teste para entrar no AC/DC, mas uma curiosidade no mínimo engraçada aconteceu no primeiro teste realizado pelo britânico – Ele não sabia para qual banda estava fazendo o teste, descobrindo somente quando foi chamado para fazer a segunda audição, quando tocou com Malcolm, Angus e Cliff Williams.  


Sobre o disco, é um trabalho mediano e pouco inspirador. Por óbvio, é difícil comparar qualquer disco em relação a Back in Black ou Highway to Hell, mas confesso que mesmo quando analiso Flick Of The Switch de forma isolada, apenas consigo ver um disco simples, que não apresenta uma energia por detrás de cada acorde. A sensação que eu tenho quando escuto o álbum, é que a banda nitidamente mirava fazer um som muito mais simples e direto, porém, o tiro saiu pela culatra, de modo, que som ficou muito seco a ponto de não transmitir qualquer sentimento por detrás da sua sonoridade, coisa que a banda sempre fez com maestria, principalmente em seus primeiros trabalhos.
Pessoalmente, não acho que o álbum pode ser ignorado ou simplesmente descartado por aqueles que querem conhecer a banda, mas tenho consciência que o trabalho é um dos, senão o mais fraco do grupo. Apesar desta opinião até certo ponto ácida, existem sim momentos de brilhantismo dentro do oitavo trabalho de estúdio da banda, músicas como "Rising Power" e "Guns for Hire", são canções que poderiam preencher o setlist do grupo com certa facilidade.
Para a promoção do álbum, a banda lançou clipes das músicas "Flick of the Switch", "Nervous Shakedown" e "Guns For Hire". Recomendo que assistam um vídeo feito de Guns for Hire em Los Angeles, em que a banda aparece tocando a música em estúdio na íntegra. Mesmo o disco não sendo um dos trabalhos mais inspirados do grupo, é inegável que o AC/DC tem uma energia que lhe é única quando está ao vivo.


Ainda sobre o disco, existem algumas curiosidades. A primeira é que Angus tentou fazer com que a capa do álbum fosse em alto relevo, assim como em Back in Black, contudo, a proposta foi prontamente recusada pela Atlantic Records, que não estava muito empolgada com o lançamento do novo trabalho, sob a justificativa de que não havia um single impactante.
Outra curiosidade, é que a banda usou a música Guns for Hire para abrir os dois shows que realizou no Rock in Rio em 1985. A canção ainda ganharia destaque anos depois, quando foi relançada para a promoção do filme do Homem de Ferro 2, sendo introduzida na coletânea “Iron Man 2” de 2010.
Mesmo que o disco não apresente todo o brilhantismo que se espera de uma banda como AC/DC, ainda é possível encontrar bons momentos dentro da obra. Agora, caso nunca tenha escutado nada dos australianos, confesso que não recomendaria que você começasse por esse álbum, mas sim, pelos clássicos Back in Black, Highway to Hell ou The Razors Edge. Agora, se você nunca prestou atenção em Flick Of The Switch, recomendo que escute novamente, pode ser que encontre momentos legais e consiga se deixar levar.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Slayer | Divine Intervention (1994)

Megadeth | Megadeth (2026)

Ozzy Osbourne | Bark at the Moon (1983)